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Há males que vem para o bem, ou sobre vacas e precipícios.

Há males que vem para o bem, ou sobre vacas e precipícios.

Jogaram nossas vacas no precipício, talvez essa seja a melhor forma de expressar o sentimento do momento. Mas eventualmente, há males que vem para o bem.


Então quero deixar claro que esse artigo é apenas uma reflexão do que está acontecendo, tentando ser otimista e talvez vendo o problema como "copo meio cheio". Mas também entendendo que a crise instalada devido à contaminação da Covid-19 é séria e terá desdobramentos pesados de longo prazo.

A pandemia tocou o mundo, atingindo pessoas de todas as classes sociais, de todas as idades, cores, gêneros e religiões, sem preconceito, sem discursos de luta por direitos e sem discurso de ódio, apenas nos lembrou que somos humanos e frágeis, todos nós igualmente.

Os mais vulneráveis estão mais vulneráveis do que nunca, aqueles que tinham pouco agora sofrerão mais ainda. O pouco que tem poderá não pagar a conta que virá na forma de recessão.

E para mim que atuo na área de inovação e transformação digital uma pergunta começou a me incomodar: será que somos tão digitais o quanto acreditamos que somos de fato?

As pessoas que são das áreas de negócios, escritório e que não atendem público diretamente foram todas mandadas para casa, para fazer "homework". Com isso vieram vários problemas que nem sonhávamos existirem, mas que surgiram quando a prática venceu a teoria.

A começar pela falta de processos de trabalho remoto, lideranças que não sabem como lidar com suas equipes, equipes que não sabem como trabalhar de casa, pessoas em casa que não entendem que estar em casa não é relaxar ou entregar menos já que ninguém está te vigiando ou observando, o comando e controle cai por terra nessas horas. 

Depois vem o problema tecnológico, que deveria ser a solução, mas é o inverso. Nossa internet ainda é de qualidade duvidosa, as empresas não investiram em estrutura de rede para suportar tantas pessoas em casa demandando velocidade e estabilidade o dia todo, não temos em nossas casas redundâncias para que as missões críticas continuem sendo tratadas dessa forma, críticas. Para exemplificar a situação, a comissão europeia pediu que a Netflix reduzisse a qualidade da sua transmissão, nada de HD, para evitar alta demanda, e estamos falando de Europa, onde a infraestrutura é considerada melhor do que a brasileira.

Daí, qual o protocolo certo para termos performance com 10 pessoas, uma em cada casa, com menos interação física todo dia várias vezes ao dia? De acordo com alguns estudos, mais de 90% da nossa comunicação é não verbal, são gestos, tom de voz e expressões faciais. Agora tente fazer uma reunião online com as mesmas 10 pessoas, cada uma numa telinha, algumas até sem telinha porque a internet não está funcionando bem. Qual será o impacto que teremos em viver por meios puramente digitais se até presencialmente temos problemas de comunicação?

Essas reflexões nos trazem de volta para a realidade que não queríamos, ou não tínhamos tempo para ver.

E o que podemos tirar de bom de tudo isso? 

Existe um aparente aumento da solidariedade, não aquela que você vê nas notícias de pessoas mandando mantimentos para locais que sofreram uma crise, a crise é global, está na sua porta. São vizinhos, amigos, parentes que se apoiam, limitam seus contatos, mas querem poder fazer algo, por menor que seja.

Redes de apoio estão sendo criadas em todos os cantos através de canais digitais para compartilhar informações, soluções ou suporte. O digital se manifestando de forma efetiva e colaborativa.

As empresas estão batendo a cabeça, mas estão aprendendo como domar o caos das relações remotas. Algumas mais rápido do que as outras, mas todas no final terão aprendido que pode ser possível trabalhar dessa forma ou confirmarem que são empresas do século passado. 

A tal inovação não é palavra da moda, é palavra de ordem. Se antes era apenas uma discussão sobre sua importância, porque um dia sua empresa iria precisar, agora é sobrevivência de verdade, hoje!

As "relações de trabalho mudaram", quantos artigos você já leu sobre isso? E agora mudaram mesmo, e as mesmas pessoas que escreviam ou falavam sobre isso também estão batendo a cabeça. Opinar é fácil, difícil é viver. 

Nesse mesmo tom, as empresas também estão entendendo que suas áreas de RSE (responsabilidade social empresarial) não são apenas ferramentas de marketing e branding, são áreas que possuem pessoas com o coração e que acreditam que suas organizações podem ser verdadeiras nesses momentos. Quem sabe depois da crise, com o aprendizado venha uma maior consciência de que empresas B, negócios de impacto, negócios sociais e áreas de RSE não são coisas para desocupados ou executivos de segunda linha que vivem num mundo paralelo que não pensam apenas em monetizar, e sim que essas serão as pessoas e empresas de vanguarda, mais conectadas à realidade dos negócios, porque o mundo irá demandar isso.

E a política, se é esquerda, direita, centro ou qualquer outra tendência, isso agora importa pouco, o governo terá de prover como um estado socialista para manter a população viva com o desemprego que virá, mas terá de fortalecer as empresas e dar mais liberdade para que elas voltem a toda a sua capacidade produtiva e de geração de riquezas, a contradição dos modelos ideológicos num mesmo espaço.

Nunca houve tanto espaço para empreendedores e inovadores atuarem. Aqueles eternos inquietos e pró-ativos que movem a humanidade. Um monte de pessoas estão descobrindo serem capazes de muito mais coisas, de possuírem muitas outras habilidades ou competências, e principalmente, muito mais motivação para transformarem o mundo em que vivem. 

Então, qual o maior aprendizado que tive até o momento?

Que esse vírus lançou minha vaca, ou nossas vacas, no precipício, logo quando tudo começava a ficar bom novamente. São as crenças que nos limitavam baseadas em mitos, meios fatos e expectativas infladas. Agora que a vaca caiu, só nos resta realmente fazer, e fazer com o que temos, nos adaptando e compartilhando o que aprendemos o mais rápido que podemos.

E fica a dica, talvez agora seja a hora de ver a crise como copo meio cheio e de forma otimista, aproveitar para mudar de verdade.

Afinal, há males que vem para o bem, e qual o bem que você pode compartilhar hoje?

Nota de aviso: Se não entendeu o porquê da vaca ilustrando esse artigo, sugiro que busque na internet pela metáfora da vaca, do mestre e do discípulo, daí tudo mais fará sentido.

Inovadores & Inquietos
Leo Tostes
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Especialista em inovação aberta e sócio na Haze Shift. Tem o propósito de ajudar organizações a impactarem o mundo de forma positiva e se transformarem criativamente e digitalmente.

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