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Ninguém virá nos salvar de nós mesmos

Ninguém virá nos salvar de nós mesmos

O mundo mudou muito e vem mudando cada vez mais rápido. A velocidade exponencial da tecnologia ultrapassa muitas vezes a nossa visão linear. As disrupções tecnológicas tendem a arrastar fortes transformações sociais, afinal desde a "revolução da internet" e da "indústria 4.0" já mudamos bastante a nossa forma de nos relacionar com a tecnologia e isso afetou bastante o como nos relacionamos com as pessoas.


Ao mesmo tempo, chegamos a um patamar crítico e as contas ambientais já podem ser vistas em vários lugares ao redor do mundo, nas ilhas do pacífico inundadas de água e plástico, nas grandes cidades e os recordes de doenças respiratórias, no mar que tem mais plástico que peixe, nos tornados, furacões e ciclones cada vez mais constantes devido ao aquecimento global, na queimada de florestas ao redor do mundo para monocultura e pasto, nas cidades litorâneas que sofrem com a poluição de óleo e diminuição da diversidade marinha. Os exemplos são inúmeros.


Conseguiremos crescer, construindo um piso social mínimo, sem ultrapassar tetos ecológicos que garantem a vida na terra, ou vamos consumir todos os recursos até nos autodestruirmos na disputa pelo último poço de água limpa? Machado de Assis quando afirmou "ao vencedor as batatas", não disse que o vencedor só ficaria com as batatas se houvesse um campo fértil para cultivá-las. Ninguém disputa deserto com o mesmo afinco que terra boa, a não ser que deserto seja a única coisa disponível para se conquistar e isso é, no mínimo, triste.


O Produto Mundial Bruto, que é a totalidade dos produtos nacionais brutos do mundo (PIB + "total de rendas recebidas do exterior" - "total de rendas enviadas ao exterior"), cresceu mais de 1000% em 50 anos ($4.081,81 bilhões de dólares em 1950 para $41.016,69 em 2000  segundo J. Bradford DeLong) e no século XXI tende a números maiores, todo esse crescimento econômico trouxe avanços incríveis para a humanidade, mas a melhoria de vida não foi proporcional a velocidade da destruição e ao perigo que esse crescimento desenfreado oferece para a continuidade da nossa própria existência.


O modelo atual vigente propõe crescimento eterno. Políticos disputam planos pautados em oferecer o maior crescimento possível dos países. Cresceremos 3,25%, afirma a esquerda, cresceremos 3,95%, afirma a direita - e o que esses números querem dizer, será que refletem mudanças reais na qualidade de vida das pessoas? - . É importante dizer aqui que me refiro as esquerdas e direitas que chegam ao poder, logicamente existem inúmeras vertentes entre estes campos de pensamento, mas é incrível como, independente de lado, a prática política da busca de crescimento eterno une os campos mais diversos de ideologia. Talvez porque essa linguagem seja entendida pelo povo como: "sua vida vai melhorar", "você vai receber um melhor salário", "seus filhos terão mais oportunidades", mas a realidade é dura e é aí que o discurso se subverte pela prática mais uma vez.


A realidade mostra que a vida das pessoas ao redor do mundo não melhorou na mesma velocidade que a economia, nossos filhos não estão tendo melhores oportunidades, os salários aumentam numericamente, mas o poder de compra não, o desenvolvimento tecnológico trará barreiras para "analfabetos digitais", o que tende a aprofundar ainda mais as desigualdades se nada for feito.


Na prática, parece que todos nós, sociedade e representantes, esquecemos que o mundo é limitado, não há possibilidade de crescer eternamente a economia e a produção. Não há mares ou terras para fora dessa "espaçonave redonda azul" que gira gravitando pelo universo. Somos apenas nós e ninguém virá para nos salvar de nós mesmos.


Platão ao criticar a democracia em "República" propõe uma crítica ainda mais profunda no espírito do tempo vigente naquele momento histórico, dizia ele que uma sociedade pautada na busca pelo poder e dinheiro nunca poderia ser virtuosa, pois, se busca uma coisa ou outra. Parece que o "zeitgeist" atual mudou muito pouco ou quase nada, afinal buscamos crescimento eterno, mas não nos propomos ao desenvolvimento profundo necessário para que nenhuma pessoa no mundo morra de fome, sede ou falta de higiene. Dignidade mínima para todos é tão pouco que não pode nem ser chamado de utopia. Utopia é chegar em marte, é morar na lua. Falta de comida em prato de criança é incompetência humana.

Aliás, na Grécia antiga, lugar onde Platão viveu, o teatro contava com um recurso muito importante para as suas histórias, para solucionar um problema impossível com algo inesperado, improvável e mirabolante recorriam ao seu panteão de Deuses, no que era chamado de "Deus Ex Machina" (expressão latina que significa literalmente "Deus surgido de uma máquina), e então no palco surgia "Deus" colocado por um guindaste para dar fim ao grande problema da narrativa.  Infelizmente este recurso só funciona no mundo ficcional,  no mundo real a inovação e a tecnologia continuam sendo a única saída para solucionar nossos problemas existenciais.

Inventamos ferramentas para controlar o fogo e à terra, para conquistar os mares e o ar. Teremos que nos superar mais uma vez na busca de controlar o ímpeto humano de crescimento eterno, se quisermos conquistar o direito de permanecer na terra de maneira prolongada.

Enquanto isso as discussões políticas são dominadas pela polarização ideológica, radicalizamos e lutamos entre esquerda e direita, deixando de ver que a real luta é por sobrevivência. Na perda de foco e de tempo entre estas discussões, enluta-se a família humana em mais uma crise pandêmica, afinal a nossa "espaçonave azul" é redonda - não tem lados - e estamos todos a bordo.


Esta discussão entre modelos tradicionais da esquerda e da direita, ou seja, o socialista-estadista, onde predomina a política, no qual o estado controla a academia e a indústria, sendo o conhecimento um subsidiário, ou do laissez-faire, onde predomina a economia, com fortes fronteiras para interação entre empresas, academia e governo (Etzkowitz, Webster, Gebhadt, Terra. 2000; Etzkowitz, 2013), já foi suplantado pelo novo modelo econômico da "economia do conhecimento", onde o processo de inovação é muito mais rápido, complexo e efetivo. O que quero dizer aqui é que a fórmula construída na revolução francesa de 1789, que dividiu o parlamento entre esquerda e direita, ou que dividiu o mundo durante a guerra fria, podia até fazer sentido para as épocas, mas já deixou de fazer sentido antes mesmo da virada do século XXI. Os discursos e práticas políticas são anacrônicas, tendem a polarização e a pouca efetividade.


Se queremos avançar como humanidade, chegando ao desenvolvimento equilibrado das comunidades e melhoria sensível da qualidade de vida com responsabilidade para com as próximas gerações, teremos que contar com nós mesmos. Parar de perder tempo com modelos ultrapassados e esgotados, concentrando nossas forças para nos organizar e construir novos modelos que solucionem os problemas atuais da humanidade, que nos desafiem para uma nova concepção de mundo, que entenda que o crescimento material é limitado, mas que o existencial tende ao infinito.

Inovadores & Inquietos
André Atila
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André Atila é professor apaixonado pela inventividade humana. Empresário na área da educação e da saúde. Presidente do Instituto Ideias Brasil. Mestre em Ciência Política, MBA em Gestão de Pessoas, Formado em Direito e Gestão Financeira.

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