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O CV tradicional ainda é útil?

O CV tradicional ainda é útil?

Comecei um novo trabalho na área de recrutamento e por isso tenho pesquisado para entender as transformações pelas quais as empresas e os empregos estão passando. Li e, principalmente, vi e ouvi muito conteúdo. Me deparei com algo que já intuía mas que pela primeira vez pude refletir mais a respeito. O currículo, da forma tradicional como conhecemos, com blocos bem divididos que apresentam o objetivo, a formação, a experiência e as competências, está com os dias contados.

Alguns dos conteúdos que vi começavam com a audiodescrição de quem estava falando, enquanto numa caixinha ao lado o intérprete de libras fazia a tradução. Não resta dúvidas de que não estamos mais no mesmo mundo que recebe currículos pré-padronizados.

É claro que as experiências, o conhecimento, as competências importam numa contratação, mas isso já é possível ver pelo LinkedIn. Que camada extra pode estar num documento enviado para uma seleção? Ou, o que os sistemas de seleção estão oferecendo de novidade para unir o candidato potencial à vaga?

Minhas pesquisas começaram na tentativa de responder a esse segundo questionamento, me cadastrei em sites e aplicativos que utilizam inteligência artificial, ferramentas tecnológicas de seleção, dizem inovar no processo de recrutamento, priorizando soft skills, aplicando testes de perfil, se valendo de gamificação. Sou dessas pessoas que se apaixonam fácil, mas mais facilmente ainda percebo quando as paixões não vão levar a relacionamentos duradouros. Desconfiei das promessas de revolução na contratação quando precisei preencher o mesmo formulário padrão que me perguntava das minhas experiências profissionais e formação acadêmica. Teve cadastro que me deu até raiva por eu ter que buscar diplomas, certificados, carteira de trabalho porque o dia de início de cursos e empregos era requerido, não só o mês. E teve o que trazia uma exigência de preenchimento de gênero mas só tinha feminino e masculino como opção. Em 2021, que evolução é essa?

Eu não entendo muito sobre programação, mas me parece que esse tipo de pergunta aparece justamente por conta dos formulários pré-definidos. Preciso preencher dia de início em um emprego porque o formulário utilizado é um calendário, não tenho a opção de um gênero não-binário porque o formulário não permite campo em branco (embora a lista suspensa pudesse ter mais um monte de entradas). O que pergunto é se não estamos selecionando para o “novo mercado” com a mesma cabeça de anos e anos atrás, por mais que usemos de tecnologia avançada e testes de perfil para encontrar o match ideal entre empresa e candidato.

Já faz um tempo que acho que esse modelo de currículo padrão não diz muito, comecei a usar uma apresentação para me candidatar, cuja capa é a foto que ilustra este texto. Ali dá pra ver que eu não sou nada formal, gosto de cor, pareço meio blasé mas espero que essa impressão vá se desfazendo ao longo da história que conto na apresentação. Essa é uma foto de viagem, feita pelo meu marido, que é fotógrafo. Está tudo contado na apresentação, quem é minha família, o que eu gosto de fazer, antes de falar onde eu trabalhei, o que estudei. Concluo dizendo os motivos de eu entender ser possível uma parceria de sucesso entre mim e a empresa, normalmente com base em nossos propósitos em comum.

Eu não busquei muitas oportunidades com esse modelo de “currículo”, mas aproveitei a minha fase de pesquisas atuais para cadastrá-lo nesses sites de emprego, vamos ver se existe a chance dele ser lido, se alguém vai achar que ele é diferente, ou relevante. Será que alguma ferramenta de pré-seleção vai conseguir ler?

Ainda não comecei meu novo trabalho de recrutadora efetivamente, mas já recebi alguns currículos. Nenhum contava sobre a pessoa, só sobre o profissional. A maioria repetia o que eu já tinha visto no LinkedIn. A sensação é de que ainda, mesmo após a pandemia e o home office, vivemos vidas separadas, uma que é de trabalho, outra que é pessoal.

Fico refletindo se essa afirmação sobre o fim do modelo de seleção pelo currículo tradicional está realmente chegando ao fim, se estamos conseguindo aplicar a tecnologia de modo a não desumanizar as contratações. Esses pensamentos me fazem lembrar de uma colega do RH que uma vez disse que normalmente se contratava pelas competências do currículo e se demitia por questões comportamentais.

Com essas inquietações em mente, estou empolgada para desvendar os mistérios do match perfeito, com a consciência de que a perfeição reside na aceitação de que ninguém é perfeito.

Inovadores & Inquietos
Roberta Bernine
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Não consigo me definir com um único título. Sou Relações Públicas de formação, especialista em Gestão da Comunicação Organizacional e em Negociação. Me especializo com o que trabalho no momento, e quero ter muitos trabalhos diferentes. Amo aprender.

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