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O HOMO SAPIENS, A INOVAÇÃO E OS DESAFIOS DA NOSSA GERAÇÃO. (PARA QUE EXISTAM GERAÇÕES FUTURAS).

O HOMO SAPIENS, A INOVAÇÃO E OS DESAFIOS DA NOSSA GERAÇÃO. (PARA QUE EXISTAM GERAÇÕES FUTURAS).

Há aproximadamente 200 mil anos atrás a humanidade foi quase extinta. Em uma época de transformações geológicas muito rápidas, fomos o único símio do gênero “Homo” que sobreviveu, nossos irmãos Neandertais e Denisovanos, por exemplo, não tiveram a mesma “fortuna”[1].

Isto é um fato, está registrado em nosso DNA, nossa variabilidade genética é muito pequena, para explicar melhor: se compararmos a variabilidade genética entre os membros de uma população de 55 chimpanzés da África Oriental, os genes variam duas vezes mais do que entre todos os mais de 7 bilhões de humanos na terra, segundo o Biólogo Pascal Gagneux, da Universidade da Califórnia. Ele afirma também que “devemos ter perdido nossa diversidade devido a alguma doença, mudança ambiental ou até guerra que deixaram nossos ancestrais à beira da extinção”.

Outro fato é que a humanidade é um caso de sucesso adaptativo entre os animais (Foley e Gamble, 2009; Harari, 2011, há evidências que ligam estas pressões ambientais externas (períodos de resfriamento e aquecimento) com as mudanças que ocorreram em elementos mais endógenos dos hominídeos, ou seja, aquilo que faz  de nós humanos hoje - incluindo a tecnologia, o fogo e os mecanismos culturais para manter grupos cada vez maiores, com a adição de estruturas sociais tanto abaixo (família e grupos de descendência) quanto acima (sistemas políticos compartilhados, linhagem e redes comerciais). Somos o animal que tem a maior capacidade de reconhecimento de grupos e comunidades da terra, mais alargada que qualquer outro símio estudado (Foley e Gamble, 2009).

Estes foram alguns dos motivos decisivos que nos fizeram sobreviver, entre elas são apontadas as adaptações humanas como processos de inovação da própria espécie, afinal o sucesso adaptativo foi devido ao ganho de eficiência das comunidades humanas durante o processo de evolução da mesma (Foley e Gamble, 2009).

A inovação se relaciona estreitamente e principalmente com a ideia de ganho de eficiência (Kotsemir; Abroskin, 2013), sendo assim é possível dizer que além de “sapiens” somos inovadores. Esta nossa capacidade de mudar formas, jeitos e processos para ganhar eficiência são a melhor e maior ferramenta já usada para garantir a própria sobrevivência humana.

O planeta terra está em uma nova era geológica chamada de era antropozoica (Stoppani, 1873), antroceno (Revkin, 1992) ou antropoceno (Crutzen e Stoermer, 2000), onde as mudanças ambientais rápidas e extremas são evidentemente impulsionadas pela ação do homo sapiens, isso tem impactado fortemente na diminuição da biodiversidade e na padronização e similaridade dos ecossistemas ao redor do globo. Estas questões já começaram a cobrar altos valores, não somente da humanidade, mas de todos o outro animais que cohabitam este nosso planetinha, afinal o antropoceno coincide com o sexto periôdo de extinção em massa na terra, 30% dos stocks de pesca no mundo estão em estado crítico devido à sobrepesca; 15 mil milhões de árvores são abatidas por ano; a biodiversidade das espécies nos ecossistemas de água doce foi reduzida em mais de 80% (David Attenborough)[2]

O primeiro bi decênio do século XXI foi capaz de produzir diversas crises e revoluções, como a revolução digital que abriu o século, a crise econômica de 2008, a quarta e quinta revoluções industriais, as crises ambiental e pandêmica do COVID-19.

O momento apresenta grandes desafios para a humanidade, o aquecimento global, a poluição crescente, as queimadas, o desmatamento, o extrativismo exploratório, o consumo exacerbado, as ilhas de lixo nos oceanos, a falta de participação cidadã, a fome, a sede e todos outros problemas mundiais são parte de desafios e frutos de uma trajetória de insustentabilidade que pode levar a humanidade para um colapso sistêmico.

As pressões ambientais fazem com que a humanidade tenha que correr na busca de soluções inovadoras, assim como fez em diversos períodos durante a história da caminhada humana pela terra (Foley e Gamble, 2009), porém, como as mudanças no atual período geológico são resultado da ação humana e acontecem cada vez mais rápidas (Crutzen e Stoermer, 2000), será preciso que adaptações e inovações sejam testadas e colocadas em prática com velocidade recorde.

As práticas de inovação geradas nos momentos de crise, como foi com nossos parentes milhares de anos atrás nas épocas de mudanças climáticas e escassez de alimento (Foley e Gamble, 2009), podem oferecer um paralelo de como o homo-sapiens se adaptará e responderá às pressôes sistêmicas através da inovação e do relacionamento com a comunidade.

O Homo sapiens consegue ser um animal incrivelmente egoísta, até mesmo pelo fato de que a evolução costuma ser mais generosa com Maquiavéis do que com as Madres Teresas, mas por outro lado pode ser também incrivelmente inteligente e altruísta quando quer e precisa.

A evolução do altruísmo é o problema teórico central da sociobiologia, ciência que busca entender em bases biológicas o comportamento social de animais [3].

Esta questão já foi visitada até mesmo por Darwin no seu livro “A Origem do Homem”, onde dizia que o comportamento moral não traz vantagem para o indivíduo, que lucra mais ao desobedecer uma regra para agir de acordo com sua vontade, mas que traria vantagem para uma tribo, afinal tribos que enfatizam “o espírito de grupo, a fidelidade e a coragem” serão mais coesas, organizadas e terão maiores chances de vitória na disputa com tribos menos organizadas. Segundo Darwin, a seleção natural não age somente sobre indivíduos, mas também sobre os grupos de competidores.

Porém, Darwin não fazia ideia da genética quando montou a teoria da Seleção Natural, mas já no século passado, genética e evolução foram combinadas no que os biólogos chamam de teoria sintética.

Os genes são pequenas sessões de DNA e funcionam como se fossem unidades replicadoras básicas graças a sua capacidade de produzir cópias de si mesmo. Os genes carregados por um indivíduo hoje já estiveram presentes nos seus antepassados e serão transmitidos para seus descendentes.

Como diria Sartre, o mundo de hoje é apenas um momento do longo desenvolvimento histórico, ou como diria o cantor Belchior, somos como nossos pais, geneticamente falando. Portanto, é de interesse do gene – e não do indivíduo e muito menos do grupo – que a seleção natural aconteça e que o gene permaneça.[4]

Hamilton desenvolveu o conceito de seleção de parentesco, ou seja, o sacrifício por um parente compensa na proporção das suas semelhanças genéticas, desta forma, a aptidão reprodutiva de um indivíduo não se mede apenas pelo número de filhos que ele consegue ter, mas também inclui parentes próximos que carregam frações de sua carga genética. Explicando melhor, quando seus irmãos têm filhos, por exemplo, é como se a sua própria carga genética estivesse cumprindo sua função evolutiva e indo adiante, mesmo que o filho não seja seu.

Mas o que esse papo complicado de genética, inovação e evolução tem a ver com Direitos Humanos? Tudo!

Afinal o Direito Humano mais importante, basilar para todos os outros Direitos e, sem o qual, não existiria nem mesmo o próprio conceito do Direito, é a vida humana.

Sem a vida é impossível todo o resto, como alerta Lacan quando aponta sobre o questinamento - “a bolsa ou a vida?” – em meio a um assalto para explicar o que é uma escolha forçada. O fato é que esta nem sequer é uma escolha, afinal, se eu escolher ficar com a bolsa, não perderei só a vida, mas também a própria bolsa pela qual me sacrifiquei, pois, de fato nenhum ladrão respeitará a bolsa de um cadáver.

Também é fato que a humanidade pós-revolução industrial não se acostumou com a necessidade de largar a bolsa para garantir a vida, ou seja, dificilmente vamos deixar de lado as comodidades trazidas pela modernidade para garantir o direito a vida das próximas gerações. Será?

Como falado no início deste artigo, se a variabilidade genética de toda a humanidade é a mesma de um pequeno grupo de chinpanzes, somos praticamente todos irmãos. Não é apenas um desafio geracional fazer que a humanidade não pereça, mas também uma imposição genética.

Neste momento a vida da nossa espécie e a das demais espécies no planeta dependerá de como conseguiremos aumentar exponencialmente a nossa capacidade de inovação para não perder a vida e, consequentemente, a bolsa.

Isso envolve melhorar a maneira de como nos relacionamos com o mundo, com as outras espécies e com nossos irmãos sapiens; de como melhoramos o desenvolvimento e a difusão do conhecimento para que possamos ser cada vez ser mais inventivos. O Antropoceno exige que sejamos um milagre ao invés de que fiquemos esperarmos por um.

Nossos antepassados enfrentaram com valentia (e muito menos recursos que nós) todas as mudanças ocorridas na terra 200 mil anos atrás, ainda carregamos seus genes, a história deles está em cada micro pedacinho de nós.

Para isso vamos ter que usar a melhor máquina que temos disponível, nosso cérebro, responsável pelos nossos sentimentos, pela nssa inteligência, pela nossa inventividade e pela nossa sobrevivênca. Este esforço não surtirá efeitos se for feito apenas por uma pessoa, tampouco por grupos pequenos, este será o maior feito e esforço global da história de qualquer ser que tenha pisado nesta terra.

Para garantir os Direitos Humanos precisamos garantir primeiro o Direito a própria vida, não podemos cercear os direitos das gerações que ainda nem nasceram. Teremos que usar nosso “cérebro coletivo” para cumprir nossa missão genética que é continuar.

Faremos isso por que somos autruístas e egoístas na mesma medida, porque no final das contas salvar as próximas gerações é salvar o eco de nós mesmos.

“Eu ainda sinto a esperança como minha concepção de futuro” (Satre).

 

André Atila é Empresário na área da educação e da saúde, Presidente do Instituto Ideias Brasil, com o objetivo de acelerar o ecossistema de inovação através da educação e criar pontes entre universidades, empresas e governos através de arranjos locais e internacionais para impactar uma nova geração de empreendedores, cidadãos conscientes e cidades inteligentes. 
Mestre em Ciência Política pela Universidade de Aveiro, MBA em Gestão de Pessoas, Formado em Direito pela Faculdade de Direito de Curitiba e Gestão Financeira pela FTI.
Tem 17 anos de experiência no terceiro setor participando ativamente de grupos de jovens, atuando como liderança no movimento Rotario, Agências de Mobilização, TEDx, Conferências da ONU para o Meio Ambiente, laboratórios cidadãos, acompanhamento de projetos do PNUD, trabalhos com a populações tradicionais e relacionamento entre Governos, empresas e Universidades. É professor de Empreendedorismo e Gestão de Pessoas e mentor de jovens empreendedores no Brasil e em Portugal.

 

REFERÊNCIAS:

BOBBIO, Norberto. O Futuro da Democracia, Paz e Terra, Rio de Janeiro, Edição de 2015.

CRUTZEN, P.J; STOERMER, E.F., 2000, The Anthropocene: Global Change Newsletter.

KOTSEMIR, Maxim; ABROSKIN, Alexander – Tipologia e conceitos de inovação – uma discussão evolucionária, 2013.

RAWLS, John. A Theory of Justice. Cambridge: Harvard University Press, 2000 (Revised Edition).

HARARI, Yuval Noah. Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, 2014

DARWIN, Charles. (1871) A Origem do Homem e a Selecção Sexual.

DARWIN, Charles. (1859) A Origem das Espécies.

Foley e Gamble (2009). The Ecology of Social Transitions in Human Evolution.

Fanon, Frantz. (1961) Os Condenados da Terra

https://super.abril.com.br/ciencia/a-evolucao-da-bondade/

https://super.abril.com.br/historia/o-dia-em-que-o-homem-moderno-nasceu/

https://www.bbc.com/portuguese/geral-50850119

https://super.abril.com.br/ciencia/sapiens-uma-nova-historia-da-humanidade/

https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/07/04/como-o-risco-de-extincao-pode-ajudar-a-humanidade-a-tornar-o-mundo-melhor.htm

https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/especiais/biodiversidade/quantas_especies_estamos_perdendo/

https://www.bbc.com/portuguese/geral-50850119

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151008_vert_earth_especies_humanas_ml

https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/daniel-deusdado/sexta-extincao-em-massa-ja-comecou-mas-podemos-mudar-diz-attenborough-12900058.html

https://super.abril.com.br/ciencia/o-homem-quase-foi-a-extincao/

https://dre.pt/declaracao-universal-dos-direitos-humanos

 


[1] Fortuna era a deusa romana do acaso, da sorte, do destino e da esperança.

[2] Documentário "Uma vida no nosso planeta" David Attenborough

[3] Segundo o biólogo Edward O. Wilson, da Universidade de Harvard, Estados Unidos,

[4] George C. Williams e William Hamilton, considerado um dos maiores teóricos da evolução de todos os tempos

Inovadores & Inquietos
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André Atila é professor apaixonado pela inventividade humana. Empresário na área da educação e da saúde. Presidente do Instituto Ideias Brasil. Mestre em Ciência Política, MBA em Gestão de Pessoas, Formado em Direito e Gestão Financeira.

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